De que forma medimos o avanço da educação?
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) são os principais instrumentos de avaliação, índices e indicadores que medem a qualidade educacional, evidenciam as desigualdades regionais e o impacto das políticas públicas no Brasil e no mundo.
Esses mecanismos têm gerado um amplo debate na literatura acadêmica, sobretudo em relação às suas concepções de leitura e letramento, e suas implicações na formação dos estudantes e no planejamento educacional. De modo que essas avaliações educacionais têm se consolidado como instrumentos indispensáveis para a compreensão das dinâmicas educacionais e dos desafios enfrentados pelos sistemas de ensino. A partir de suas metodologias, é possível identificar aspectos relacionados ao desempenho acadêmico, às disparidades regionais e sociais e ao impacto das políticas públicas (Bonamino et al., 2002).
A abordagem do Pisa é considerada inovadora ao se alinhar às demandas da sociedade contemporânea e ao conceber o letramento como uma competência abrangente. Bonamino et al. (2002) apontam que o Pisa privilegia uma concepção de leitura que ultrapassa o domínio técnico, integrando a interpretação e o uso funcional da linguagem em contextos sociais.
Godinho e Farias (2013) destacam que o Saeb utiliza matrizes curriculares que priorizam descritores técnicos, limitando-se à avaliação de aspectos específicos do desempenho escolar, sem considerar plenamente as interações sociais e culturais que influenciam o aprendizado.
Nesse sentido, a comparação entre as duas avaliações permite compreender como suas estruturas refletem concepções distintas de letramento e leitura.
O Pisa avalia competências relacionadas à interpretação crítica e à funcionalidade da linguagem em contextos variados, promovendo uma abordagem mais ampla e conectada ao uso social do texto. O Saeb, ao focar na compreensão de textos narrativos e expositivos vinculados ao currículo escolar, apresenta um escopo mais restrito e voltado ao ambiente acadêmico (Bonamino et al., 2002). Essa diferença é central para a discussão sobre como as avaliações refletem e influenciam o ensino da leitura e a formação leitora nas escolas brasileiras.
Posto isto, tanto o Pisa quanto o Saeb têm sido centrais na discussão sobre os rumos da educação contemporânea, especialmente ao serem analisados sob a perspectiva da literatura educacional. Essas avaliações não só oferecem um diagnóstico das competências escolares como também um entendimento mais amplo das relações entre o aprendizado e os contextos sociais e culturais.
Consequentemente, os resultados dessas avaliações têm gerado debates significativos na literatura acadêmica, especialmente em relação ao impacto das análises quantitativas na formulação de políticas públicas e práticas pedagógicas.
A literatura acadêmica enfatiza que os resultados dessas avaliações têm implicações significativas para a formulação de políticas educacionais. Segundo Godinho e Farias (2013), os dados do Saeb têm sido utilizados como base para intervenções que buscam corrigir lacunas nos sistemas de ensino, embora nem sempre as ações propostas considerem a complexidade das desigualdades regionais e sociais.
No contexto do Pisa, Lima et al. (2023) alerta para o risco de que seus resultados sejam utilizados para justificar reformas educacionais alinhadas a diretrizes globais, muitas vezes desconsiderando especificidades locais. Essa tensão entre demandas nacionais ressalta a importância de interpretar os dados de maneira crítica e contextualizada.
O Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD), responsável pela seleção e distribuição de livros nas escolas, frequentemente prioriza materiais que reforçam práticas pedagógicas tradicionais, dificultando a adoção de abordagens mais dinâmicas e criativas. A conexão entre as avaliações e a literatura se torna ainda mais evidente ao considerarmos o conceito de letramento.
Soares e Candian (2007) definem letramento como a capacidade de ler e escrever articulada à aplicação prática e contextualizada dessas habilidades.
Além das questões relacionadas às avaliações, a literatura infantil desempenha um papel importante no desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita. Lajolo e Zilberman (2022) argumentam que a literatura infantil é um recurso essencial para a formação leitora, pois articula experiências estéticas e culturais com o aprendizado técnico.
No entanto, Araújo e Faustino (2009) ressaltam que o uso da literatura nas escolas brasileiras muitas vezes se limita a atividades repetitivas e pragmáticas, o que reduz seu potencial transformador.
A análise das avaliações do Pisa e do Saeb, sob a ótica da literatura educacional, permite evidenciar suas contribuições para a formação leitora e o letramento, ao mesmo tempo em que destaca suas limitações. Para que essas ferramentas promovam sistemas educacionais mais equitativos e formem leitores críticos, é essencial considerar tanto os aspectos técnicos quanto os sociais e culturais envolvidos no processo de ensino da leitura.
Nesse cenário, a literatura infantojuvenil se apresenta como uma ferramenta poderosa para o desenvolvimento das competências avaliadas, especialmente no campo da leitura e da interpretação. Por meio de histórias cativantes e diversificadas, ela estimula o pensamento crítico, a ampliação do vocabulário e a compreensão de textos em diferentes formatos e contextos, habilidades fundamentais para melhorar o desempenho escolar e os resultados nessas avaliações. Além disso, a literatura incentiva o hábito da leitura, fortalecendo a autonomia dos estudantes na construção do conhecimento.
Nesse contexto, a introdução à leitura na primeira infância possui um impacto profundo e duradouro no desenvolvimento cognitivo e acadêmico das crianças, refletindo diretamente no desempenho em avaliações externas como o Pisa e o Saeb. Desde os primeiros anos, quando as crianças são introduzidas ao mundo dos livros, há um enriquecimento do vocabulário e o estímulo à imaginação, criando uma base sólida para habilidades como interpretação e resolução de problemas.
É no Ensino Fundamental I que o foco se volta para a alfabetização e o desenvolvimento da compreensão leitora, estabelecendo as bases para a cultura e o prazer pela leitura.Todavia, à medida que os alunos avançam para o Ensino Fundamental II e o Ensino Médio, há um aumento na complexidade dos textos e na exigência de habilidades interpretativas, analíticas e críticas. Cada etapa desempenha um papel crucial na formação de leitores proficientes e reflexivos, prontos para os desafios das avaliações externas.
REFERÊNCIAS
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